Nova esperança para o tratamento da leishmaniose cutânea – Notícias | INCT-DT

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Nova esperança para o tratamento da leishmaniose cutânea

A pesquisadora e vice-diretora da Sociedade Brasileira de Parasitologia, Patrícia veras, lidera estudo inovador para tratamento da leishmaniose cutânea, uma das chamadas Doenças Determinadas Socialmente, permanece entre os principais desafios da saúde pública em diversas regiões do mundo e tem presença significativa no Brasil. Endêmica no país, a enfermidade afeta principalmente populações em situação de vulnerabilidade social, como trabalhadores rurais em idade produtiva, gerando impactos sociais, econômicos e sanitários relevantes.

“O Brasil está entre os nove países com maior número de casos da doença no mundo e, em algumas regiões, observa-se expansão da transmissão. Atualmente, o tratamento mais utilizado baseia-se em medicamentos como os antimoniais pentavalentes e a anfotericina B, administrados por via injetável e por longos períodos. Apesar de eficazes, esses fármacos apresentam limitações importantes, como elevada toxicidade, necessidade de aplicação por profissionais de saúde, dificuldades de adesão ao tratamento e altos índices de abandono. Além disso, as terapias de segunda linha costumam ter custo elevado e também podem provocar efeitos adversos significativos”, explica Patrícia.

Diante desse cenário, cresce a busca por alternativas terapêuticas mais seguras, acessíveis e de fácil aplicação, conforme recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). Nesse contexto, pesquisadores brasileiros desenvolvem uma nova formulação tópica com potencial para ampliar as opções de tratamento da doença.
“A proposta em desenvolvimento prevê um gel inovador à base de Carbopol® contendo 17-DMAG, um inibidor da proteína Hsp90 que apresenta atividade leishmanicida e propriedades imunomoduladoras”, afirma a pesquisadora Patrícia Veras. A formulação, que já possui patente depositada, foi concebida para ser de baixo custo e autoaplicável, permitindo o uso domiciliar e facilitando a adesão ao tratamento, especialmente em áreas endêmicas e de difícil acesso aos serviços de saúde.

O projeto encontra-se atualmente na fase de desenvolvimento pré-industrial e envolve diferentes etapas científicas e tecnológicas. Entre elas estão a otimização e caracterização físico-química da formulação, estudos de estabilidade, testes de liberação e permeação do fármaco, além da produção de lotes piloto e avaliações pré-clínicas de segurança e eficácia em modelos experimentais.
Paralelamente, os pesquisadores trabalham na construção de uma rota nacional de semi-síntese do 17-DMAG a partir da geldanamicina, em parceria com a indústria farmoquímica brasileira. “O objetivo é viabilizar a produção nacional do princípio ativo e garantir equivalência físico-química em relação ao composto importado, fortalecendo a autonomia tecnológica do país”, diz Veras.
Resultados preliminares indicam que a formulação apresenta estabilidade inicial de até 30 dias e ausência de toxicidade em estudos iniciais realizados em camundongos. A tecnologia encontra-se atualmente em um nível intermediário de maturidade tecnológica (TRL4–TRL5). Estudos anteriores conduzidos pelo National Cancer Institute, dos Estados Unidos, também já produziram dados de segurança sob Boas Práticas de Laboratório, o que pode favorecer futuras etapas regulatórias.

A iniciativa reúne uma ampla rede de colaboração científica formada por quatro unidades da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Bahia, CDTS, Farmanguinhos e Fiocruz Pernambuco) e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). O projeto integra competências nas áreas de química medicinal, farmacotécnica, farmacologia e inovação em saúde.
Outro parceiro estratégico é a Bahiafarma, laboratório farmacêutico público do Estado da Bahia, que deverá contribuir nas etapas de escalonamento produtivo e transferência de tecnologia do composto semi-sintetizado.

Entre os resultados esperados estão o desenvolvimento de um protótipo estável e eficaz da formulação tópica, a produção de lotes piloto para estudos pré-clínicos e a validação da rota nacional de produção do princípio ativo. A expectativa é que a tecnologia possa, no futuro, contribuir para ampliar as opções terapêuticas disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).
“A proposta representa um avanço promissor no enfrentamento da leishmaniose cutânea, uma doença negligenciada que ainda afeta milhares de brasileiros, além de fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde e a capacidade de inovação científica no país”, conclui a pesquisadora Patrícia Veras.